A Neurobiologia do Silêncio: por que a escuta é o único caminho ético para pessoas brancas
- Márcia Martins Guerra

- 23 de fev.
- 3 min de leitura

Na psicologia contemporânea, muito se discute sobre o "lugar de fala". No entanto, pouco se explora a dimensão clínica e neurocientífica que fundamenta a necessidade do silêncio ético de pessoas brancas diante do racismo. Como psicóloga e pesquisadora do comportamento, entendo que a resistência em ouvir — e a pressa em opinar — não é apenas uma falha de etiqueta social, mas uma resposta neurobiológica que protege o privilégio e compromete a eficácia psicoterapêutica.
Do ponto de vista da neurociência afetiva, o confronto com a realidade do racismo estrutural costuma ser percebido pelo cérebro branco como uma ameaça à integridade do "self". Esse fenômeno manifesta-se fisiologicamente através da reatividade da amígdala e da ativação de circuitos subcorticais responsáveis pela detecção de ameaça. Quando essas redes de processamento emocional são hiperativadas, a conectividade com o córtex pré-frontal — área responsável pelo raciocínio reflexivo e pela empatia complexa — é temporariamente reduzida.
O resultado é uma resposta de luta ou fuga: o branco agride através da invalidação da dor alheia ou foge através do silêncio defensivo. Em ambos os casos, a "opinião" emitida sob esse estado não é uma contribuição intelectual; é uma tentativa de autorregulação emocional reativa para aplacar o próprio desconforto silenciando a fonte do estresse.
Ao transpor essa análise para a Terapia do Esquema, percebemos que a psicologia neoliberal frequentemente comete o erro de isolar o indivíduo de sua estrutura. Esquemas de Desconfiança/Abuso, Privação Emocional e Vulnerabilidade ao Dano não nascem no vácuo; eles são arquitetados pelo racismo estrutural e pelas condições materiais de existência. Ignorar que o capitalismo racial molda a psique é uma forma de negligência clínica. Quando um terapeuta branco ignora a influência da estrutura social sob o pretexto de uma "neutralidade científica", ele está, na verdade, validando um sistema que adoece o paciente.
Um dos pilares mais negligenciados na clínica tradicional é o trauma geracional. A neurociência do comportamento prova que o trauma não é apenas uma narrativa, mas uma marca epigenética. Mudanças na expressão gênica, decorrentes de estresse crônico e violências sistêmicas, são transmitidas aos descendentes. Pessoas negras herdam um sistema biológico de hipervigilância, e quando a psicologia individualiza esse sofrimento, tratando-o como "distorção cognitiva", ela pratica o apagamento da história.
O papel da psicóloga branca não é o de "dar voz". A voz já existe; o que falta é o ouvido aparelhado pela ética e pelo rigor científico. Descolonizar o olhar clínico significa admitir que o cérebro não é neutro e que a cura individual é indissociável da transformação coletiva. Precisamos de uma psicologia que entenda que a saúde mental é um projeto político. Reconhecer o limite da nossa própria fala não é um silenciamento imposto, mas um passo fundamental para uma prática que realmente acolha a complexidade do ser humano em sua totalidade — biológica, social e histórica.
Diante disso, a clínica e a neurociência nos convocam a uma reflexão que ultrapassa as paredes do consultório. É preciso questionar se, em algum momento da sua jornada, o seu sofrimento psíquico foi tratado como uma falha individual, ignorando deliberadamente as marcas de uma estrutura social injusta ou de um trauma que não começou em você. Compreender que o trauma racial possui uma base biológica e histórica altera profundamente a forma como percebemos a nossa própria saúde mental e, principalmente, a nossa responsabilidade na construção de uma cura que seja, enfim, coletiva.
Referências:
ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Pólen Livros, 2019.
DIANGELO, Robin. Fragilidade Branca: Por que é tão difícil para os brancos falar sobre racismo. Faro Editorial, 2018.
KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: Episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
RIBERO, Djamila. Lugar de Fala. São Paulo: Pólen Livros, 2019.
YEHUDA, Rachel. Biology of Posttraumatic Stress Disorder. Journal of Clinical Psychiatry, 2001.
YOUNG, Jeffrey. Terapia do Esquema: Guia do terapeuta. Porto Alegre: Artmed, 2003.



